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Fragmentos Perigosos: Impactos dos Microplásticos em Nossos Ecossistemas Aquáticos

Sabrina Paula Pereira, Marcos S.P. de Carvalho, Jicaury Roberta Pereira da Silva

Pós-graduandos do Programa de Pós-Graduação em Biotecnologia (UFSJ-CCO)

v.3, n.3, 2025

o de 2025

A partir da metade do século XX, os materiais plásticos passaram a ser componentes essenciais do nosso dia a dia [1]. É indiscutível o progresso que o plástico trouxe para o desenvolvimento humano. Os plásticos são uma ampla gama de materiais sintéticos ou semissintéticos que usam  polímeros como ingrediente principal. Polímeros são formados de várias pequenas moléculas chamadas monômeros que se ligam entre si de forma repetitiva para formar algo maior, como plásticos. Isso permite que os plásticos sejam moldados ou prensados em objetos sólidos de várias formas. Essas composições químicas podem ser estrategicamente modificadas, de forma a obter produtos coloridos, transparentes, mais finos, mais grossos e assim por diante [2,3]. 

O plástico é utilizado em diversos setores devido à sua leveza, resistência e baixo custo. Na indústria automotiva é aplicado em componentes e peças estruturais; no setor de embalagens é comum em garrafas e embalagens para alimentos, medicamentos e cosméticos; na construção civil é usado em tubos, conexões e isolamento;  também é essencial na saúde (seringas e bolsas de sangue); na indústria têxtil (fibras sintéticas); no  agronegócio (filmes para cultivo e irrigação), sendo também utilizado em brinquedos, equipamentos esportivos, itens de papelaria, e dispositivos tecnológicos (como em computadores) e em energias renováveis (como painéis solares) [2,4]. Sua presença em quase todos os setores reflete sua importância e versatilidade.

Segundo estudos, sua produção deve seguir em crescimento, com previsão de dobrar até 2030, caso não haja mudanças nas políticas e nos hábitos atuais. O aumento na produção e o descarte inadequado do plástico são responsáveis por sua grande presença no meio ambiente. Uma sacola plástica gera cerca de 1,75 milhões de fragmentos microplásticos (fragmentos menores que 5 micrômetros) no meio ambiente [5]. Estima-se que, até 2050, o mar terá mais peso em plástico do que em peixes. Como resultado, o plástico se tornou um poluente preocupante, especialmente para os ambientes aquáticos, com mais de 13 milhões de toneladas desse material sendo despejadas em rios e oceanos a cada ano [6]. Uma vez nos ambientes aquáticos os plásticos se fragmentam muito devagar, podendo ficar no ambiente por décadas [7]. No entanto, com  o passar do tempo, esses materiais se quebram em pedaços menores por causa de processos mecânicos e pela ação do sol, formando os ditos microplásticos e nanoplásticos (menores  que 1 micrômetro) [8]. Os microplásticos podem ter diferentes características, como forma, tamanho, cor, tipo de material e a capacidade de adsorver (associar à sua superfície) outras substâncias [9-12]. E estão espalhados por vários ambientes aquáticos, como lagos, rios, estuários e oceanos [1,13-15]. 

Os microplásticos estão amplamente espalhados no ambiente e, por serem tão pequenos, podem ser facilmente engolidos pelos seres vivos (Figura 1) [16]. Eles já foram encontrados em muitos tipos de organismos, como no zooplâncton (que é um conjunto de pequenos organismos  aquáticos que flutuam na água), em peixes e também em mamíferos marinhos [17-20]. Os animais  podem ingerir microplásticos de diferentes maneiras, confundindo os pedaços de plástico com comida, engolindo-os acidentalmente enquanto procuram alimento, ou quando se alimentam de outros animais que já tenham ingerido plástico (mas ainda não se sabe exatamente todos os fatores que influenciam esse processo). Mas a ingestão desses microplásticos pode causar danos físicos sérios [21] como asfixia ou obstrução e feridas no estômago. Além disso, os microplásticos podem conter substâncias tóxicas, que são os produtos químicos colocados na fabricação dos plásticos, como o  bisfenol A e ftalatos, o que faz com que esses pequenos pedaços de plástico ajam como transportadores de ‘venenos” para dentro do organismo dos indivíduos [11,22]. Isso pode trazer sérios riscos à saúde dos organismos aquáticos, afetando sua sobrevivência, crescimento, reprodução e metabolismo [23-25].  Estes microplásticos podem acabar também afetando os seres humanos por meio da contaminação  dos alimentos (Figura 1) [26].

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Figura 1: Imagens ilustrativas de como ocorre a interação dos organismos aquáticos com plásticos  e microplásticos, e como essa poluição pode chegar até a alimentação humana.

Fonte: Painel montado pelos autores.

Além dos impactos físicos que ocorrem devido a ingestão dos fragmentos de plástico, um outro problema é que nesses materiais são colocados vários compostos sintéticos resistentes à degradação e altamente estáveis, e que conseguem ficar por longos períodos de tempo no ambiente. Esses compostos são tóxicos e apresentam grande capacidade para a acumulação em organismos vivos. Existe também, uma preocupação recente sobre o potencial dos plásticos em adsorver substâncias tóxicas como, fármacos [27] drogas ilícitas [28], metais pesados e POPs (poluentes orgânicos persistentes) [29]. Os POPs são produtos químicos tóxicos que se decompõem lentamente e permanecem no  ambiente por muito tempo; são substâncias químicas que podem interferir na produção ou na atividade de hormônios interferindo no funcionamento correto do organismo [30].

 

A durabilidade do plástico no meio aquático ainda é incerta, mas no ambiente em geral, leva mais de 400 anos para degradar-se espontaneamente [31], e provavelmente os aditivos podem prorrogar esse prazo por mais 30 ou 50 anos. Possui também uma alta mobilidade de dispersão e liberação de substâncias tóxicas [29]. Sendo então os POPs prejudiciais tanto para os próprios organismos que com eles tem contato direto, como para aqueles que se alimentam deles, incluindo o ser humano. O plástico possui um ciclo de vida que causa danos às pessoas e ao planeta como um todo. 

O problema dos microplásticos é um dos maiores problemas ambientais que vivemos hoje, e vem diariamente impactando o ecossistema aquático. O descarte desses materiais no meio ambiente  aumenta cada vez mais devido o uso excessivo de plásticos (que levem séculos para se decompor) no dia a dia. Para diminuir o impacto negativo gerado pela modernidade, é urgente sensibilizar a população para a necessidade de começar a adotar hábitos mais sustentáveis, como a utilização de compostos biodegradáveis, que se decompõem rapidamente e que causam menos danos ao ambiente, substituindo, por exemplo, o plástico por materiais como papel, vidro, metais recicláveis e bioplásticos. Assim contribui-se significativamente para a redução da poluição. Conscientizar a população por meio da educação ambiental e incentivar mudanças de hábitos diários, são práticas fundamentais para combater-se a crise dos microplásticos e promover-se um futuro mais saudável e equilibrado para o planeta.

Referências Bibliográficas

[1] Napper IE, et al. Plastic debris in the marine environment: History and future challenges 2020. Global Challenges, 4(6), 1900081. 

[2] Michaeli, W, et al. Tecnologia dos plásticos 1995. Editora Blucher. 

[3] Gorni, AA. Introdução aos plásticos 2003. Revista plástico industrial, 10(09). 

[4] Piatti, TM, et al. Plásticos: características, usos, produção e impactos ambientais 2005.  Maceió: Edufal, 51. 

[5] Williams A. Marine organisms can shred a plastic bag into 1.75 million pieces, study shows. Disponível através do link: https://phys.org/news/2017-12-marine-shred-plastic-bag-million.html. Acesso em: 07 mar. 2025.

[6] Foerster, KH. Plastics-the Facts 2017. Association of Plastic Manufacturers, Brussels.

[7] Shrivastava, A. Introduction to plastics engineering 2018. William Andrew. 

[8] Espinosa, C et al. Microplastics in aquatic environments and their toxicological implications for fish 2016. Toxicology–new aspects to this scientific conundrum. InTech, Rijeka, 113-145. 

[9] Mintenig, S. Planktonic Microplastic in the North Sea. A new extraction method for the  detection by Fourier Transform Infrared Spectroscopy (FTIR) 2014. Carl von Ossietzky Universität  Oldenburg, 61. 

[10] Duis, K, et al. Microplastics in the aquatic and terrestrial environment: sources (with a specific  focus on personal care products), fate and effects 2016. Environmental Sciences Europe, 28(1), 1-25. 

[11] Li, J, et al. Adsorption of antibiotics on microplastics 2018. Environmental Pollution, 237,  460-467. 

[12] Rodrigues, MO, et al. Spatial and temporal distribution of microplastics in water and  sediments of a freshwater system (Antuã River, Portugal) 2018. Science of the total environment,  633, 1549-1559. 

[13] Dris, R, et al. Beyond the ocean: contamination of freshwater ecosystems with (micro-)  plastic particles 2015. Environmental chemistry, 12(5), 539-550. 

[14] Rowley, KH, et al. London's river of plastic: High levels of microplastics in the Thames  water column 2020. Science of The Total Environment, 740, 140018. 

[15] Yang, L, et al. Microplastics in freshwater sediment: A review on methods, occurrence, and  sources 2020. Science of The Total Environment, 141948.

[16] Egbeocha, CO, et al. Feasting on microplastics: ingestion by and effects on marine organisms 2018. Aquatic Biology, 27, 93-106. 

[17] Vendel, AL, et al. Widespread microplastic ingestion by fish assemblages in tropical  estuaries subjected to anthropogenic pressures 2017. Marine Pollution Bulletin, 117(1-2), 448-455. 

[18] Amin, RM, et al. Microplastic ingestion by zooplankton in Terengganu coastal waters,  southern South China Sea 2020. Marine pollution bulletin, 150, 110616. 

[19] Courtene-Jones, W, et al. Consistent microplastic ingestion by deep-sea invertebrates over  the last four decades (1976–2015), a study from the North East Atlantic 2019. Environmental  Pollution, 244, 503-512. 

[20] Nelms, SE, et al. Microplastics in marine mammals stranded around the British coast:  ubiquitous but transitory? 2019. Scientific Reports, 9(1), 1-8. 

[21] Peda, C, et al. Intestinal alterations in European sea bass Dicentrarchus labrax (Linnaeus,  1758) exposed to microplastics: preliminary results 2016. Environmental pollution, 212, 251-256. 

[22] Teuten, EL, et al. Transport and release of chemicals from plastics to the environment and  to wildlife 2009. Philosophical transactions of the royal society B: biological sciences, 364(1526),  2027-2045. 

[23] Naidoo, T, et al. Decreased growth and survival in small juvenile fish, after chronic exposure  to environmentally relevant concentrations of microplastic 2019. Marine pollution bulletin, 145, 254- 259. 

[24] Qiang, L, et al. Exposure to microplastics decreases swimming competence in larval  zebrafish (Danio rerio) 2019. Ecotoxicology and environmental safety, 176, 226-233. 

[25] Qiang, L, et al. Exposure to polystyrene microplastics impairs gonads of zebrafish (Danio  rerio) 2021. Chemosphere, 263, 128161. 

[26] Akhbarizadeh, R, et al. Investigating microplastics bioaccumulation and biomagnification in  seafood from the Persian Gulf: a threat to human health? 2019. Food Additives & Contaminants: Part  A, 36(11), 1696-1708. 

[27] SANTOS, D, et al. Microplastics alone or co-exposed with copper induce neurotoxicity and  behavioral alterations on zebrafish larvae after a subchronic exposure 2021. Aquatic Toxicology, v.  235, p. 105814. 

[28] QU, H, et al. How microplastics affect chiral illicit drug methamphetamine in aquatic food  chain? From green alga (Chlorella pyrenoidosa) to freshwater snail (Cipangopaludian cathayensis) 2020. Environment International, v. 136, p. 105480. 

[29] ROCHMAN, CM, et al. Rethinking microplastics as a diverse contaminant suíte 2019.  Environmental Toxicology and Chemistry, v. 38, n. 4, p. 703-711. 

[30] Rani-Borges, et al. Microplásticos como transportadores de poluentes em água doce e no  solo. 2022. Disponível através do link: https://repositorio.usp.br/item/003121495. Acesso em: 07 mar. 2025. 

[31] Ruiz Valencia, D, et al. Nuevas alternativas en la construcción: botellas PET con relleno de  tierra 2012. Apuntes: Revista de Estudios sobre Patrimonio Cultural-Journal of Cultural Heritage  Studies, 25(2), 292-303.

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